As crianças sentem medo mais frequentemente do que aquilo que nós, adultos, possamos imaginar. Por cada caso de medo expresso, há muitos casos de medo experienciado em silêncio , de medo oculto e escondido por detrás dos comportamentos agressivos, da timidez excessiva ou das queixas somáticas. Este medo “vem à superfície” nos momentos em que se abre um espaço onde a criança possa falar sobre o que sente sem receio de ser julgada, de incomodar ou assustar os outros com a expressão do seu sentimento.
A maior parte dos medos aparece num período compreendido entre os 4 e os 6 anos, tendo um pico de sensibilidade aos 6. O facto de os medos serem compreendidos culturalmente como uma “emoção negativa” faz com que os pais se esforcem para explicar aos pequeninos como ultrapassá-los, mas poucas vezes darem atenção à aceitação das suas experiências emocionais. Esta estratégia também pode derivar da baixa tolerância às emoções fortes dos próprios pais, o que contribui para reacções como: ignorar, negar ou desvalorizar, tentar acalmar a todo o custo, rotular o medo como uma doença e insistir na medicação.
As crianças aprendem através da interiorização dos comportamentos dos adultos, e no caso do medo, há um risco da criança interiorizar o medo de ter medo. Assim, por exemplo, o inicial medo do cão pode ser transformado no medo de estar atormentado sempre que se cruze com um cão, bem como a disposição ansiosa, agitada e de evitação perante novas experiências.
As crianças necessitam que os seus medos sejam reconhecidos, aceites e respeitados. Olhar tranquilamente, escutar e estar com o medo delas são manifestações de segurança no momento de partilha das suas vivências inquietantes e perturbadoras. Esta atitude do adulto também transmite a mensagem de que existem várias escolhas no modo de reagir.
A aceitação significa: “sim, os bandidos podem ser mesmo perigosos”, “é verdade, às vezes, é muito difícil falar quando tanta gente está a olhar para ti”, “tu inventaste um monstro terrível”. Claro que isto tudo só é possível, se o próprio adulto não estiver afogado na sua própria ansiedade e no medo insuportável.
O outro passo importante a tomar depende do tipo de medo da criança. Se ela se sente receosa por não conseguir executar uma tarefa ou errar numa resposta, a mensagem pode ser a seguinte: “vamos dar a mão ao teu medo e começar a fazer ou a falar…”. Em colaboração com a criança, pode ser inventada uma história, cuja personagem principal tem muito medo, mas cujo medo não a impede de fazer seja o que for e permite obter diversas experiências novas. É necessário explorar e apoiar os desejos da criança: “queres subir a escada, eu estou ao teu lado”, “é verdade está muito alto, mas estás a apoiar bem os teus pés e eu estou a ver”.
Parafraseando as palavras da terapeuta infantil V. Oaklander, deixo-vos uma mensagem: os adultos que se atrevem a entrar em contacto com as experiências da criança vão ganhar uma oportunidade de se compreender melhor a si próprios.
João Sem Medo é uma iniciativa da Oficina de Psicologia que visa ensinar às crianças, na prática, a lidar eficazmente com os seus medos (http://www.oficinadepsicologia.com/oficininhas.htm
Especialistas do Portal dobebe.com
Dra Irina António
Psicóloga Clínica, pela Oficina de Psicologia
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